DIFAMAÇÃO – DEFESA DE FRANCISCO BENTO MARIA TARGINI – RECORRENTES ERROS NA SUA BIOGRAFIA, QUE LEVAM À INJUSTA DIFAMAÇÃO DE SEU NOME.

                                                                       DIFAMAÇÃO

DEFESA DE FRANCISCO BENTO MARIA TARGINI, VISCONDE DE SÃO LOURENÇO.

I – RECORRENTES ERROS NA BIOGRAFIA DE FRANCISCO BENTO MARIA TARGINI QUE LEVAM À INJUSTA DIFAMAÇÃO DE SEU NOME.

Francisco Bento Maria Targini, primeiro Visconde de São Lourenço, da nobiliarquia portuguesa, nascido em Lisboa, foi Tesoureiro Mor do Erário, no Brasil, durante o Reinado de D. João VI, a quem admirava profundamente e serviu com lealdade, até a volta da Família Real a Portugal, em 1821.

A amizade e admiração por D. João VI era recíproca e isto, mais a rigidez com que mantinha os gastos com o dinheiro público, lhe granjeava um grande número de desafetos e tramoias para derrubá-lo. Por outro lado, seu posicionamento político, muito conservador, ferrenho defensor do poder absoluto do Monarca, desencadeou uma série de intrigas por parte dos defensores das teorias liberais.

Entre eles, sobressaia-se Hipólito José Pereira Furtado de Mendonça da Costa, o jornalista brasileiro, com cidadania inglesa, fundador de “O Correio Brasiliense”, há muitos anos radicado em Londres, que não lhe dava trégua.

Formando dupla com Hipólito,  achava-se o jornalista João Bernardo da Rocha Loureiro, fundador do jornal ” O Português ou Mercúrio Político, Comercial e Literário”.,também adversário ferrenho dos políticos absolutistas. Tomando uma postura fundamentalista, seguia os métodos do redator do Correio Brasiliense, destruindo personalidades do governo, também em busca da ascensão de um governo liberal.

Hipóllito da Costa havia fundado o jornal com uma única meta: fazer propaganda dos princípios liberais. Criticava a escolha de Targini para Tesoureiro do Erário Real, pois este era um ferrenho defensor do absolutismo. Pintava o Tesoureiro Mor como um “ignorante, que mal tinha conhecimento dos princípios básicos de escrituração e de quem nunca se ouvira falar que tivesse uma só boa qualidade”.

Difícil acreditar nisto, quanto a uma pessoa,  que já aos dezenove anos, era assistente do Marquês de Pombal e aos vinte foi nomeado, por D. Maria I, funcionário do Governo, justamente na área de Finanças.

Eram estas as principais armas de Hipólito da Costa e de João Bernardo da Rocha Loureiro: usar da ironia, da falsidade e da ofensa, para conseguir seus propósitos, em uma época que ainda não se falava em ética, no jornalismo, e se empregava o conselho de Maquiavel, sem qualquer pejo: “O fim justifica os meios”.

Por ser um nobre e funcionário direto do Rei, o costume e a etiqueta não permitiam a Targini se defender, pelos mesmos meios impressos. Chegava mesmo a brincar com os epigramas publicados para difamá-lo. Assim, os jornalistas se aproveitavam disto, para  enfraquecer seu poder e tentar derrubá-lo de seu posto.

Contudo, todos os que privavam com Targini, e até mesmo Hipólito, sabiam bem que, além de ser um profundo conhecedor de Finanças Públicas, desde a mocidade, quando serviu na Corte portuguesa, aos dezenove anos, junto ao Marquês de Pombal, o Tesoureiro Mor era reconhecido como escritor,  ótimo financista, tradutor, introdutor da Filosofia de Kant, em Portugal e no Brasil. Falava e escrevia o grego, o latim, o inglês, o francês, o italiano, o espanhol, além de gostar de escrever poesias. Seus serviços de contabilidade, prestados ao Marquês  de Pombal,  possibilitaram- lhe fosse nomeado pela rainha D. Maria I, para prestar serviços na Corte.

Produziu várias obras literárias, mas se tornou famoso pela tradução, do inglês, de “O Paraíso Perdido”, obra de John Milton, das mais importantes da literatura Universal, ao lado da Divina Comédia e dos Lusíadas. Seu trabalho é considerado, até hoje, o melhor que se fez desse poema épico, na língua portuguesa. As notas explicativas, cuidadosamente colocadas junto à tradução, demonstram, ainda, grande erudição e  profundo conhecimento da Bíblia e da Mitologia.

Apesar de, desde seus 19 anos de idade, trabalhar para a Coroa, sempre em altos cargos, com ótimo ordenado, o único bem que possuiu foi uma casa, no Rio de Janeiro, na Rua de Matacavalos, hoje do Riachuelo, esquina com Rua dos Inválidos. Em 1820, já na idade madura, graças ao bom ordenado que recebia e às economias de uma vida inteira, adquiriu a casa do oficial das ordenanças do Paço, Antônio da Cunha. Ao contrário das críticas que se fez a Targini, ninguém se admirou do ordenança ter podido construí-la, e ele ocupava um cargo cujos vencimentos eram bem menores que os do Tesoureiro Mor.

Targini a reformou e a transformou em uma elegante e confortável residência. Contudo, seus inimigos, num contínuo projeto de difamação de seu nome, espalhavam que seus proventos não deveriam ser suficientes para isto e, portanto, o dinheiro para a reforma deveria ter sido roubado do Erário. Afirmações sem provas e sem argumentações, jogadas no ar, com malícia e má fé, mas que como se sabe, estes tipos de infâmia têm grande força e são logo recebidas como verdades pelo povo.

Durante sua estadia no Ceará, para onde fora, em 1783, nomeado como escrivão da provedoria da capitania, mediante Patente Régia de Sua Majestade, trabalhou em um ambiente hostil, criado por sua atitude firme de coibir a malversação do dinheiro público, como era costumeiro no lugar, o que lhe granjeou vários inimigos.

A saga de sua passagem pelo Ceará foi muito bem narrada pelo historiador cearense Guilherme Studart, em seu livro “Notas para a História do Ceará”. Valendo-se de centenas de documentos, a obra é imprescindível para quem quer conhecer, com profundidade, a época em que o Brasil foi uma Colônia de Portugal.

Perseguido politicamente, recebeu a proteção de D. João VI, que acreditava em sua integridade e, por conhecer sua competência e trabalho, o nomeou Tesoureiro Mor do Erário, concedeu-lhe o título de Barão e depois de Visconde de São Lourenço.

Acompanhou, em 1821, a Família Real, em seu retorno a Portugal. Porém, por ser conservador, os liberais, que exigiam a assinatura da Constituição por D. João VI, não o deixaram descer em Lisboa, bem como outros fidalgos da confiança do Rei.  Foi, então, estabelecer-se na França, onde morreu, vivendo da pensão que lhe foi concedida, por D. Pedro I, por direito.

Suas filhas ficaram no Rio de Janeiro, praticamente sem recursos e, acostumadas a frequentar o Palácio, passaram a fazer doces para vender à sociedade carioca ou mandar vender, nas ruas, em tabuleiros.

Durante sua vida, enfrentou, com sabedoria e altivez, perseguições, maledicências, infâmias plantadas por inimigos pessoais e públicos. Criava inimigos que não suportavam sua rigidez, sempre que se tratava de gastos com o  dinheiro do Erário Real. Era temido pelos inimigos da Monarquia que, entre outras ações, usavam o ardil de destruir a reputação dos mais influentes homens do Governo, para enfraquecê-los perante a opinião pública, como foi feito na França e nas Colônias espanholas da América do Sul, que se tornaram Repúblicas.

Os nobres portugueses, que acompanharam D. João VI em sua vinda para o Brasil, recebiam polpudas pensões, sem trabalhar. Targini tentava conter a sanha com que alguns, exageradamente, recorriam ao Tesouro, mas D. João VI, com sua conhecida bondade e lembrando-se das adversidades que esses companheiros de infortúnio haviam sofrido, na dolorosa empreitada de salvar o governo de Portugal, mandava abrir-lhes a bolsa com frequência, desautorizando Targini.

Assim, o Tesoureiro Mor, contra sua vontade, ia fazendo os pagamentos, mas, ironicamente, lhes aconselhava: “-Aproveitem enquanto a vaca tem leite”.

Para melhor elucidar esses fatos, nada como a narrativa feita por Joaquim Manoel de Macedo, no seu SUPLEMENTO BIOGRAPHICO, Fls. 358 — 3 5 9:

“Durante o período de treze anos e dois meses menos dias, com que se manteve na idade do Rio de Janeiro a capital da Monarquia portuguesa correram, abusivamente exageradas, as despesas do Erário Régio, e diziam alguns que por isso muitas vezes faltava á ele o dinheiro.

Outros, asseguravam que Targini (á quem sobraram  desafetos e invejosos do favor que ele tinha na corte) adiava longa e excessivamente pagamentos no Erário, tendo agentes que se empregavam em descontá-lo.

Aleive, ou verdade, pois que a suspeita é gravíssima, e não temos provas para considerá-la fundamentada, propalava-se como se fosse certa, e conta-se até curiosa anedota ou real, ou imaginária, e neste caso eivada de insinuação maligna.

 Diz-se que um D. Fernando, fidalgo português de tradicional excentricidade, fazia grande ruído e maltratava com acres palavras, e epigramas ferinos, á Targini, quando ia ao Erário receber honorários ou pensão, e lhe adiavam o pagamento por faltar dinheiro, e que Targini, queixando-se disso ao príncipe regente D. João, este, um dia de recepção no Paço, dissera a D. Fernando, depois de censurar-lhe o procedimento:

  – Proíbo-lhe pronunciar palavra alguma que desaire ou injurie o Targini.

 Cumpre lembrar que Targini tinha de menos uma vista, era cego de um dos olhos.

E a tradição assegura que o original D. Fernando ao retirar-se do Paço, encontrando-se com o Targini, indicara-lhe mudo, mas empregando mímica, muito expressiva, que se não lhe pagasse a pensão, lhe furaria o único olho com que via.

Targini voltara sobre seus passos a denunciar a D. João o novo insulto recebido, D. Fernando que o seguira, respondera ao príncipe regente, que ressentido o interrogara:

 — Senhor, Vossa Alteza Real proibiu-me pronunciar a palavra, e eu não falei. Apenas empreguei a mímica que é muda para ver se este homem me dá o dinheiro sem desconto.

 E a tradição, verdadeira ou falsa, acaba informando, que o príncipe regente á rir, dissera:

 — Targini, livra-te de D. Fernando, pagando-lhe á boca do cofre.

 Como quer que fossem as suspeitas e acusações, Francisco Bento Maria Targini foi por ocasião do aniversário natalício da Rainha D. Maria I, e do batizado de seu neto, o infante D. Sebastião, em 1811, agraciado com o titulo de Barão de São Lourenço, e tão estimado e válido continuou a ser na corte, que D. João, já Rei em 1819, o elevou de Barão de S. Lourenço á Visconde do mesmo titulo, quando distribuiu graças e títulos em honra do nascimento e batismo de sua neta a principal D. Maria da Gloria, mais tarde Rainha de Portugal”.

 Targini só abria a arca, se o Monarca lhe ordenasse. E, muitas vezes, teve de fazê-lo, mas nunca em seu proveito.

   II –  “Do ladrão ao barão”

Pela dedicação com que prestou, durante toda a vida, seus serviços à Coroa, não pude aceitar como válido o uso que a curadora da Casa de Rui Barbosa, do Rio de Janeiro, Isabel Lustosa, fez da figura de Francisco Bento Maria Targini, quando o citou como exemplo, ao ilustrar um artigo seu sobre a corrupção dos políticos atuais.

Publicado em 03 de junho de 2007, no jornal Folha de São Paulo, com o título “Do ladrão ao barão”, pela historiadora e pesquisadora Doutora em Ciência Política pelo IUPERJ, desde 1985, e portadora de muitos outros títulos, ninguém pôs em dúvida a veracidade de suas afirmações. Inspirados nessa publicação, uma enxurrada de artigos sobre política e corrupção surgiram na mídia brasileira, repetindo as mesmas palavras usadas no artigo citado e incorrendo em erros que foram e continuam sendo transmitidos de autor para autor, solidificando a difamação de seu nome, sem citarem um único documento que comprove suas afirmações.

Até mesmo um professor de conhecido colégio paulistano, mediante distribuição impressa à sua classe, usou esse artigo que difama o nome de Francisco Bento Maria Targini, ao pretender dar conhecimento a seus alunos, de como são antigos os casos de políticos corruptos no Governo brasileiro. Também diversas teses acadêmicas, como publicadas na Internet, foram apresentadas, com base no artigo da historiadora Isabel Lustosa, sem qualquer contestação da banca examinadora.

O artigo da Doutora Isabel Lustosa, publicado em 03 de junho de 2007, no jornal Folha de São Paulo, possui diversas falhas, o que nos faz refletir sobre a responsabilidade do historiador, quando faz qualquer afirmação. A responsabilidade ao escrever artigos, e publicá-los, faz parte intrínseca de sua formação e, portando, os dados repassados devem estar apoiados em profunda pesquisa e documentos, principalmente quando se trata de difamar o nome de um cidadão de bem.

Transcrevo e rebato as afirmações feitas no artigo sobre Francisco Bento Maria Targini, que se tivessem sido feitas após uma pesquisa completa, análise de documentos e meditação baseada em sua experiência, sem dúvida, jamais seriam citadas, pelo menos com tanta certeza, pela eminente historiadora:

Diz a Dr. Isabel Lustosa:

1 – “…Targini era filho de um italiano e começara a carreira numa casa de comércio como caixeiro, progredindo depois para guarda-livros”.

Na verdade, Targini nasceu em Lisboa, na Freguesia de Loreto, hoje Encarnação, Portugal, em 16 de outubro de 1756, filho de Leopoldo Pascuale Maria Targini e Anna Thereza Joaquina de Castro, nascidos em Portugal. (Geneall)

Era neto de Cristovão Marques Targini, cuja  origem  era italiana, de Leone . Este sim, tinha como profissão a de guarda livros, profissão esta que exercia, com a necessária aprovação do Tribunal do Santo Ofício, após profunda investigação, como só sabiam fazer os membros da terrível instituição. Foi inquirido pelas chamadas Diligências de Habilitação, sendo aprovado, para exercer sua função, nas casas nobres portuguesas, e participar dos inúmeros processos de execução, nas ações cíveis de libelo, nos inventários dos Feitos Findos, perante o Juízo dos Órfãos da Repartição do Termo.

Eis o que consta do documento que informa essa nomeação:

TSO Tribunal do Santo Ofício 1536/1821

CG Conselho Geral do Santo Ofício 1569/1821

A Ministros e Familiares

008 Diligências de Habilitação

002 Habilitações Incompletas 1588/1820

LINK:  “1158 Diligência de habilitação de Cristovão Marques Targini  1770/1770″

Esta aprovação era um documento valioso, que atestava a alta posição que o investigado possuía, na sociedade portuguesa, pois se valia de uma grande quantidade de dados profissionais, investigações, inquirições, testemunhos, situação econômica, etc., que caso não fossem aprovados, não se poderia obter a licença para participar da vida da Corte Portuguesa.

Investigava-se, principalmente, a ascendência das pessoas que queriam o certificado de Familiar do Santo Ofício.  Tudo o que se referia aos pais, avós, bisavós, e o mesmo se faziam quanto aos ascendentes da esposa.

Sem dúvida, a Drª Isabel Lustosa valeu-se de informação equivocada, que também deverá ser corrigida, do Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, de Portugal, de João Romano Torres – Volume VI, págs. 697-698.

Nas notas iniciais, dirigidas ao leitor, João Romano Torres explica que tomou como norte, para seu trabalho, “a descrição histórica e corográfica de todas as cidades, vilas e outras povoações do continente do Reino, Ilhas e Ultramar, monumentos e edifícios mais notáveis, tanto antigos como modernos; biografias dos portugueses ilustres antigos e contemporâneos, célebres por qualquer título, notáveis pelas suas acções, pelos seus escritos, pelas suas invenções ou descobertas; bibliografia antiga e moderna; indicação de todos os factos notáveis da história portuguesa, etc., etc.”

Observe-se a quantidade de informações complexas contidas na proposta de elaboração do Dicionário.

Para tanto, João Romano Torres contratou numerosos colaboradores, cada um com um método, com sua maneira de investigar, o que deu lugar a  certa incoerência.

Para dar a uniformidade possível ao trabalho, incumbiu para a redação final Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, dando lume à obra, em Lisboa, aos 25 de Março de 1904.

O que marca esse trabalho é a honestidade de seu editor, quando  declara que o Dicionário é composto de “avultadíssimo número de publicações das especialidades de que trata, cuja consulta, nem sempre fácil, é oferecida ao leitor nos seus tópicos mais interessantes.

Para conseguir este fim temos envidado os maiores esforços.

É certo que um grande número das imperfeições, que em geral se notam nos dicionários, são especialmente motivadas por uma colaboração variadíssima (o grifo é nosso). Os nomes dos numerosos colaboradores, embora colhidos de entre os mais apreciados no meio literário e científico, originam umas diferenças de opinião, de critério e de método, que tornam a obra inferior, pelo menos na sua unidade.  Não há direcção que eficazmente possa obstar a tais defeitos, porque isso reclama muito tempo, grande cautela, a maior atenção e infinita paciência. É forçoso fazer as comparações necessárias e as mais conscienciosas investigações.

No dicionário “Portugal” procuramos obviar aqueles inconvenientes, confiando-o exclusivamente a dois redactores, cujas faculdades de trabalho nos eram bem conhecidas e penhor de bom desempenho de tal encargo.

Não ocultaremos os embaraços com que os operosos redactores do “Portugal” têm lutado desde que anuíram em executar o nosso projecto. “Essas dificuldades são as peculiares aos empreendimentos congéneres; já esperadas, não causam desfalecimento”.

Observa-se, portanto, que o próprio autor concorda que há um grande número de imperfeições e defeitos no Dicionário e, sem dúvida, as informações sobre a origem e a carreira de Francisco Bento Maria Targini incorrem nestas falhas, pois os documentos existentes demonstram outra realidade da ali afirmada.

O pesquisador que desejar informar a origem de Francisco Bento Maria Targini ou outras figuras da História de Portugal, não poderá se basear somente no Dicionário de João Romano Torres, que honestamente reconheceu que nele poderá haver muitas imperfeições, por ter sido feito por muitas mãos. Haverá a necessidade de obter-se  outros documentos, para se confrontar as informações.

2 – “… Na vida pública, seu primeiro cargo importante foi o de arrecadador de rendas da Província do Ceará”.

Também não procede esta informação, pois, antes disso, Francisco Bento Maria Targini,  aos dezenove anos já assessorava o Marquês de Pombal, nos assuntos financeiros. Exerceu seu primeiro cargo importante em 1776, na Corte Portuguesa, nomeado, aos vinte anos, como Escrivão da Fazenda Real, onde se destacou. Ali serviu durante sete anos, até 1783, quando, então, foi nomeado como escrivão da provedoria da capitania, mediante Patente Régia de Sua Majestade, com todos os privilégios que o cargo trazia e com ordenado igual ao soldo do capitão-mor e governador. (NOTAS PARA A HISTÓRIA DO CEARÁ, Guilherme Studart).

3 – “Nomeado em 1783, lá permaneceu até 1799”.

Targini não ficou, como se afirma, até 1799. Foi sim nomeado em 1783 como escrivão da rovedoria da capitania do Ceará, mediante Patente Régia de Sua Majestade, mas tendo em vista os desentendimentos com o Governador João Batista  de Azevedo Coutinho de Montaury, voltou a Portugal em 1787, onde, novamente, serviu junto à Fazenda Real.

Somente após 12 anos, com a emancipação da Capitania do Ceará da de Pernambuco e com a criação da Junta de Fazenda Autônoma do Ceará, em janeiro de 1799, Francisco Bento Maria Targini voltou ao Brasil, nomeado por despacho da rainha D. Maria I, já no dia 25 daquele mês, como Escrivão e Deputado da Junta.

4- “Targini veio para o Rio com a corte em 1807”.

Targini não embarcou com a Corte, em 1807, pois nessa ocasião se achava no Ceará, exercendo o cargo de escrivão e deputado, na Junta de Fazenda Autônoma daquela Província, para o qual fora nomeado, como acima relatamos, mediante Patente Régia de Sua Majestade.  (NOTAS PARA A HISTÓRIA DO CEARÁ, Guilherme Studart).

Porém, assim que chegou ao Brasil, D. João VI criou, pelo Alvará de 28 de Junho de 1808, o rário ou Tesouro Geral e Público, e a ele subordinado um Conselho da Real Fazenda. Tendo conhecimento de que Francisco Bento Maria Targini estava no Brasil, convocou-o imediatamente para compor o Conselho da Real Fazenda. Foi assim que Targini voltou a trabalhar junto à Corte, nomeado Tesoureiro Mor, por Alvará de 13 de Outubro de 1808.

5 – “Ao que parece, sua rápida elevação a homem forte das finanças da época teve o apoio de um poderoso grupo de negociantes ingleses”.

Note-se que a Drª Isabel Lustosa não afirma que Targini devia sua rápida elevação a homem forte das finanças ao apoio de um poderoso grupo de negociantes ingleses. A historiadora teve o cuidado de informar que “ao que parece” teria acontecido isto. Conjecturas, boatos, que sempre acompanham essas nomeações. Não há nenhuma prova disso. Ao contrário, sua rápida nomeação para o Conselho do Real Erário, quase junto com sua criação, não deu tempo para conchavos ou pressões de quem quer que seja, mas se deu pelo conhecimento de sua capacidade e pela confiança, que D. João depositava em sua pessoa, por já conhecê-lo de Lisboa, quando prestava seus serviços na Corte, desde o tempo do Marquês de Pombal.

6 – “Santos Marrocos menciona em suas cartas que, no Rio de Janeiro, circulavam muitos pasquins contra Targini com quadrinhas como esta: Furta Azevedo no Paço/ Targini rouba no Erário/ E o povo aflito carrega/ Pesada cruz ao Calvário”.

Pelo valor que a Drª Isabel Lustosa dá ao depoimento de Santos Marrocos, parece, para quem não o conhece, que se trata de conhecido historiador. Uma simples observação epistolar de Marrocos a seu pai, ganha o valor de um argumento de autoridade, de magister dixit . O que se sabe de  Luiz Joaquim Santos Marrocos , filho e ajudante do pai, bibliotecário da Corte, em Lisboa, é que, por ocasião da vinda da família Real ao Brasil, foi designado, para acompanhar e cuidar da Biblioteca , trazida ao Brasil e se encarregar de sua instalação, no Rio de Janeiro.  Nunca foi historiador e o que conta em suas cartas ao pai, em tom coloquial, não pode ser tratado como se fosse uma pesquisa, mas como simples notícia, verdade ou não, do que se falava, no momento, no Rio de Janeiro.

Marrocos adorava frequentar o palácio, aonde ia todos os dias beijar a mão de D, João e recolher as últimas fofocas.

Quem lê suas cartas, chega a achar graça e a compará-lo ao personagem “O doente imaginário”, de Molière. Fala constantemente em sua má saúde e no sofrimento causado pelo clima do Rio de Janeiro e dos tratamentos que faz para aliviar suas dores.

Apenas, em uma de suas cartas, relata, casualmente, que leu, em pasquins, quadrinhas que mordazmente brincavam com Targini e Azevedo chamando-os de ladrões do dinheiro público.  Os inimigos de Targini, sempre procurando qualquer coisa para difamá-lo, esquadrinharam esta correspondência, dando enorme divulgação da carta de Marrocos e, assim, o tornando famoso.

Justamente foram essas quadrinhas, vindas da pena de difamadores profissionais, que me levaram a estudar a origem desses textos “difamatórios, tendenciosos, mal intencionados, indecentes e de excelente leitura”, como os classifica o historiador de Harvard Robert Darnton, em seu excelente livro “O Diabo na  Água Benta”.

Darnton trata em seu interessante livro, dos inúmeros escroques desclassificados, como eram chamados os escritores que se dedicavam a enxovalhar biografias alheias. Esses escritores eram chamados de libelistas, isto é, os autores dos “relatos escandalosos das questões públicas e da vida privada das grandes figuras da corte e da capital. Súcia de mascates literários”, como os descreve Darnton.

Aprendi com o citado historiador de Harvard, que os libelistas, escritores repudiados em seus países, imigravam para Londres, onde havia mais liberdade de expressão, fosse ela para o bem ou para o mal. “Faziam o seu trabalho, em geral, a soldo de políticos que queriam ver a desgraça pública de seus rivais  O chefe da polícia da França, já em 1774, os chamava de “excrementos da literatura”, mas em vão, pois eles já faziam parte do próprio sistema político do Antigo Regime. Muitos libelos eram encomendados por gente da corte, que havia percebido a irresistível força da “voz das ruas”, então traduzida pela literatura, para alimentar intrigas e se agarrar ao poder.

Os libelos, porém, se os estudarmos de perto e os examinar ao longo dos séculos, têm algumas características peculiares. Incorporavam certos ingredientes básicos cujos nomes nos soam familiares: “anedotas”, “retratos”, “nouvelles” (noticias anedóticas ou anedotas noticiosas) mas, na verdade, eram técnicas retóricas consagradas para agradar os primeiros leitores modernos.

Ao destruírem reputações, ajudaram a deslegitimar regimes e a derrubarem governos, em diversas épocas e governos”.

Haja vistas para o plano de destruição da reputação de Maria Antonieta, classificando-a de mulher devassa e cuja mais leve  das infâmias que os libelistas lhe atribuíram, e que hoje se sabe que nunca foi dita, foi a frase: “Se o povo não tem pão, que comam brioches”.

Em Portugal e no Brasil não era diferente. O reinado de d. Maria I e de D. João VI se viram envolvidos pelas grandes mudanças da sociedade, influenciadas pelas doutrinas dos filósofos iluministas, pelas guerras napoleônicas e pelas lutas pela independência encetadas pelas colônias das Américas.

No Brasil, além de outros, o maior foco dos libelistas era derrubar o homem forte do poder real: Francisco Bento Maria Targini, o leal e incorruptível  servidor da Monarquia, apelidado desde o tempo que serviu no Ceará, de “o Cérbero do Erário”, isto é, o terrível cão que vigiava ferozmente as portas do Inferno.

 A postura rígida e austera de Targini, quando se referia a qualquer gasto público, postura esta que  lhe integrou o caráter, até o fim de sua vida, sempre irritou profundamente aqueles  que tentavam ludibriar, fazer negociatas e apossar-se, indevidamente, de valores que pertenciam ao Real Erário. Por outro lado, seus princípios conservadores, além de ser adepto do Regime Absolutista, por lealdade a seu rei, lhe granjearam poderosos inimigos políticos, seguidores dos princípios liberais ou republicanos, que se juntaram aos demais e faziam de tudo para lhe denegrir o nome, sempre o difamando  e tramando, para afastá-lo dos altos e importantes cargos que os Monarcas lhe confiavam.

Aliás, foi o Próprio D. Pedro I, já no poder, que aprovou as contas apresentadas por Targini, isentando-o de todas as calúnias e, ainda, lhe concedeu uma pensão suficiente para viver com conforto, em seu exílio em Paris. E saiba-se que D. Pedro não morria de amores pelo Tesoureiro Mor, pois, quando mocinho, vivia às turras com Targini, por este lhe negar dinheiro para suas farras e limitar o valor que lhe era concedido, para suas despesas pessoais.

Se Targini roubasse do Erário, logicamente não se negaria a encher os bolsos do Príncipe, que um dia herdaria o trono, para lhe conquistar a confiança. Mas não. Para ele, o Erário era sagrado e só fazia exceção para D. João VI. Por ser assim, era conhecido como “o Cérbero do Erário”, isto é, o cão que vigiava ferozmente as portas do Inferno.

Outro escritor, que em seu livro “1808”, se refere a Targini usando informações totalmente inverídicas, copiadas não se sabe de quem, foi Laurentino Gomes.

Laurentino Gomes, na introdução de seu “bestseller” 1808, declara que para sua consecução procurou dar a versão mais correta possível dos fatos e dos protagonistas da História da corte brasileira no Brasil e, para isto “se baseou em relatos e documentos históricos, exaustivamente apurados e checados”. (Fls.24).

No entanto, quando às folhas 194 do livro, se refere a Francisco Bento Maria Targini, apresenta uma biografia do Tesoureiro Mor de D. João VI deturpada, em todos os seus termos, indicando como fonte a página 309 do livro de Tobias Monteiro, “História do Império”.

Assim, escreve que: “De origem italiana, Targini era de família catarinense pobre e humilde. Entrou no serviço público como guarda-livros, um trabalho menor na burocracia do governo da colônia. Como era inteligente e disciplinado, virou escrevente do erário e logo chegou ao mais alto cargo nessa repartição. Com a chegada da realeza ao Brasil, passou a acumular poder e honrarias. Encarregado de administrar as finanças públicas, o que incluía todos os contratos e pagamentos da corte, enriqueceu rapidamente. Ao final do período de D. João no Brasil, sua casa, com dois andares e sótão, situada na esquina da Rua dos Inválidos com Riachuelo, era uma das maiores do Rio de Janeiro.

Em meio à revolução constitucionalista de março de 1821, foi preso e teve seus bens confiscados. Duas semanas mais tarde, estava solto. Também foi proibido de retornar a Portugal com D. João VI, mas continuou a levar uma vida tranquila e confortável no Brasil”.  (Os grifos são da autora do site).

 Ora, ao nos reportar ao livro indicado por Laurentino Gomes como fonte, verificamos que o autor, Tobias Monteiro, faz de Targini um relato totalmente diferente. Nem uma só frase combina com o que se descreve no livro “1808”.

Em nenhum momento Tobias Monteiro diz que Targini era catarinense, pobre, humilde e que entrou para o serviço público como guarda livros no governo da colônia.

Tão pouco que “virou” escrevente do erário. E muito menos que “não embarcou com D. João VI, mas continuou a levar uma vida tranquila e confortável no Brasil”.

O relato que Tobias Monteiro faz de Targini também é totalmente deturpado, sem referência a fontes e documentos, mas não combina com o de Laurentino Gomes. De onde tiraram eles as informações que publicaram?  De documentos confiáveis é que não foram.

Faça-se, pois, justiça, dando-se a conhecer a verdadeira história da vida de um dos mais competentes e honrados servidores do Brasil colonial, primeiro Tesoureiro-Mor, equivalente hoje ao cargo de Ministro da Fazenda.

Procuremos desfazer, com base em pesquisa de documentos, e não por cópia de autores nteriores, as calunias e difamações usadas como armas para derrubá-lo de seu cargo e afastá-lo de D. João VI, a quem dava seu poderoso apoio para sustentar o poder real do monarca.

 

Sobre Maria Sylvia Nogueira de Toledo
Nasceu em Jundiai. Infância em Ribeirão Preto, Colégio Nossa Senhora Auxiliadora. Mudou-se para Sáo Paulo, onde estudou nos colégios São José, Eduardo Prado e Piratininga onde se formou professora primária. Cursou a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, turma de 1961. Procuradora do Município de São Paulo, aposentada. Viúva, quatro filhos e cinco netas.

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