EPISÓDIOS

OS “ALFINETES” DO PADRE

Eis o que nos faz saber o historiador Guilherme Studart, em seu famoso livro “ANOTAÇÕES PARA A HISTÓRIA DO CEARÁ”, ao manusear documentos escritos por Francisco Bento Maria Targini, quando este ainda prestava serviços para a Corte, como escrivão, no Ceará. Trata-se de uma carta que nos mostra como ele agia quando se deparava com um caso de suborno. Era assim que ele pensava:

“14 DE DEZEMBRO DE 1801 – Francisco Bento Maria Targini, Escrivão da Provedoria da Fazenda no Ceará, escreve carta ao Padre Elias Pinto de Azevedo, morador em Almofala, nos seguintes termos: “O documento que Vm. me remetteu para cobrar a sua côngrua do tempo que diz servio de Vigário dessa povoação de d´Almofala, não é bastante para o dito effeito, visto que Vm. servio sem as competentes provisões. A respeito de Vm. me offerecer 50$000 para os alfinetes de minha mulher, sua criada, se me offerece dizer-lhe, que ella quando veio de Lisboa, trouxe já os alfinetes que lhe eram precisos para se pregar no Ceará, e que eu desculpo esta sua ouzadia attendendo a sua idade, demência e ao costume com que até a minha chegada se estava de se decidirem semelhantes questões por dinheiro, por ter sido aqui a venalidade companheira inseparável dos Magistrados e Fiscaes da Real Fazenda; o que Vm. sabe ser um crime horroroso e imperduavel em semelhantes homens”, Targini estava com a razão ao rejeitar a pretensão do Pe. Elias, pois este somente teria direito a receber a côngrua caso tivesse sido nomeado pároco colado; os registros confirmam que o Pe. Elias exerceu seu ministério como vigário encomendado e nessa condição sua remuneração era de responsabilidade dos seus fregueses. Este o principal motivo pelo qual os vigários encomendados viviam em situação de extrema penúria, pois os fiéis não estavam em condições de assumir as despesas dos vigários. O termo “alfinetes”, empregado pelo Padre Elias, tinha sua origem nas leis de 17 de agosto de 1761 e 4 de fevereiro de 1765, que estabeleceram o PACTO DOTALICIO, cumulativamente com o CONTRATO DOTAL. Pelo DOTALICIO a mulher tinha, no caso de viuvez, o direito de receber certos bens, frutos, pensões ou mesadas para seus ALFINETES. Esclarece Candido Mendes de Almeida, nos comentários ao Título XLVII do Livro Quarto das Ordenações do Reino, que ALFINETES tinham o significado de APANAGIOS e ALIMENTOS. Targini foi figura controversa, mas de reconhecida probidade; foi galgado ao cargo de Tesoureiro Mor do Real Erário do Reino do Brasil e criado Barão de São Lourenço por Decreto de 17.12.1817 e por outro de 3 de maio de 1819, Visconde do mesmo nome”.

  DEFESA DE TARGINI  (CONT)

O historiadorManuel Emílio Gomes de Carvalho, no Capítulo V de seu livro, “Os Deputados Brasileiros nas Cortes Gerais de 1821”, nos informa, baseado em documentos e fortes argumentos:

“Capítulo V

Não devemos encerrar o capitulo sem falar de Targini, cujas contas de tesoureiro mor foram aprovadas durante a administração de Arcos e que atassalhado de todos com violência inaudita, simboliza o conceito formado pelo português e pelo brasileiro dos que lidam com dinheiros públicos: todos mais ou menos ladrões.

Quando Thomaz Antonio organizou o ministério de 24 de junho reservou para si os negócios do reino e deles separou a administração da fazenda, a qual veio desse modo a constituir uma nova secretaria, confiada a João Paulo Bezerra.

Parece que, uma das razões de semelhante reforma estava, não na falta de ambição, nem no desejo de aliviar-se de trabalhos e cuidados inerentes á gestão das finanças, mas no empenho de fazer fiscalizar convenientemente o tesoureiro mor, acusado de peculato pela voz pública”.

(Na verdade, por uma contínua propaganda dos detratores do Governo Absolutista, encabeçados por Hipólito da Costa).

“Quem melhor do que Bezerra para tal encargo? Era enérgico e honrado, odiava Targini e era rabugento. Nove meses depois, morria o titular da nova pasta e inteiramente congraçado com o subalterno.

Thomaz Antonio, que os valia pela moralidade, passou a estimar e a defender o barão de S. Lourenço.

Mais adiante, continua Gomes de Carvalho  a defender a honradez de Targini:

 “Afirmava-se, com segurança, que o governador Montaury o expulsara da escrivania do Ceará por peculato; que com vencimentos anuais de oito mil cruzados despendia trinta mil e ainda lhe restavam recursos para construir um palacete em Matacavallos e guarnece- lo de alfaias suntuosas, tudo representativo de quatrocentos mil cruzados.

Em 1921, volvido D. João VI á pátria, continuou a averiguação da responsabilidade do tesoureiro, sob a vigilância de D. Pedro e do seu principal ministro e estes, a despeito de amarem a popularidade, tiveram de reconhecer a exação das contas. Ainda mais, verificada a situação pecuniária do antigo servidor, o regente por um d’esses rasgos de generosidade que lhe eram habituais, concedeu-lhe pelo decreto de 4 de maio a pensão de um conto e seiscentos mil reis.

Eram verídicas as acusações contra S. Lourenço? Não o acreditamos. Certamente os diferentes ministros sob cujas ordens servia o tesoureiro, homens honrados e ciosos de boa fama, alguns, até, seus desafetos, não deixaram de proceder a diligências acerca das arguições contra o subordinado e reconheceram que tudo eram calúnias, desde a exclusão ignominiosa da junta do Ceará aos gastos excessivos; calúnias determinadas, porventura, pelo zelo com que defendia os interesses do erário, exigindo com rigor o pagamento dos impostos e o cumprimento das obrigações á chusma ávida dos contratadores.

AS MALUQUICES DO IMPERADOR  A ACLAMAÇÃO DE D. JOÃO VI  (TRECHO) PAULO SETUBAL Cap. II

ACLAMAÇÃO DE D. JOÃO VI

ACLAMAÇÃO DE D. JOÃO VI

A aclamação de D. João VI foi um deslumbramento. A mais soberba festa que a Colônia vira até então. Aquele rei burguês, aquele homem bonacheirão e gordo, empenhara-se com alma, rasgadamente, para que seu grande dia tivesse um brilho único, estonteante

Não houve poupança.  Targini. o tesoureiro de El-Rei, abriu os cofres atulhados de barras de ouro E foi um gastar profuso, um enfeitar, um cobrir de luxos desmedidos aquele pobre Rio de 1816.

São três horas da tarde. A Varanda Real cintila. É um pavilhão imenso, suntuosíssimo, que João da Silva Muniz, arquiteto do Paço, sob o olhar vigilante do Barão do Rio Seco, construíra exclusivamente para o ato supremo. Faíscam dentro dele atavios régios. Toda a aristocracia da corte, a mais alta, a de sangue mais limpo, burburinha por entre os capitéis dourados. Nas tribunas, de onde jorra uma crua faiscação de jóias, papagueiam risonhamente  as damas, os decotes branquejando entre rendas e gazes, os altos trepa-moleques de ouro cravados nos cabelos em coque. Lá está na tribuna de honra, que é de seda rosa, toda broslada de arminhos, a Senhora D. Carlota Joaquina, muito empoada, pelos ruivos na cara áspera, sentada triunfalmente entre as quatro princesinhas.

De repente, pelo ar festivo, rompem as charamelas. A corte inteira, ao toque eletrizante, ergue-se com ânsia. Os olhares todos cravam-se ávidos na entrada. O Porteiro Real escancara as portas. E o cortejo magnífico surge. Que belo!  À frente, com as grossas maças de prata ao ombro, vêm os Porteiros da Cana. Depois, o Rei d’Armas, com o seu vistoso capacete empenachado. Seguem-se os dois Arautos, com as longas trompas de ouro. Finalmente os Passavantes cobertos de ferro, as couraças de escamas refulgindo.

O Alferes-Mor empunha a Bandeira Real enrolada na haste. E o séquito passa. São os Moços da Câmara, são os Moços Fidalgos, são os Grandes do Reino, são os Bispos, é Tomás Antônio Vila nova Portugal, Ministro e Secretário de Estado.

Enfim, o Rei.

AS MALUQUICES DO IMPERADOR AS DÍVIDAS DO PRÍNCIPE Paulo Setúbal Pág.

D. PEDRO I Simplício Rodrigues de Sá último retrato no Brasi

D. PEDRO I Simplício Rodrigues de Sá último retrato no Brasi

Foi numa noite de gala, aniversário do príncipe regente, que D. Pedro viu no palco, pela primeira vez, a bailarina entontecedora. Era uma francesinha de matar. Uma boneca de luxo, toda pluma frágil como um bibelô. E tão loira! E tão fresca E dona duns olhos tão grandes, tão liricamente azuis! D. Pedro era um príncipe impetuoso. Tinha dezessete anos, o coração sôfrego. A bailarina, a criatura pequenina e doce, fascinou-o doidamente. D. Pedro atirou-se às tontas na aventura. Noemi foi o seu primeiro amor. Foi a loucura da sua adolescência. O moço Bragança desatinou-se. Fez tudo o que podia fazer, aos dezessete anos, um príncipe de sangue, herdeiro do trono, desbragado e estroina. Viveu com a rapariga uma vida de romance, boêmia, ensartado de noitadas febrentas, com serenatas de violão e de lundus. Cobriu-a de sedas. Recamou-a de pérolas. Lantejolou-a de pedrarias magníficas. Foi um estonteamento! A aventura custou-lhe uma fortuna.         Um dia, porém, o Plácido veio despertá-lo bruscamente daquela embriaguez de amor. O criado falou com severidade: – É preciso liquidar as dívidas, príncipe! Vossa Alteza está encalacrado. A casa Phillipsanda reclamando o pagamento… A coisa já vai longe! D. Pedro, com indiferença: – Quanto é que eu estou devendo, Plácido?

FRANCISCO GOMES DA SILVA, O CHALAÇA

FRANCISCO GOMES DA SILVA, O CHALAÇA

– É fácil dizer, Alteza. Sacou um caderninho do bolso e começou a fazer as contas: – Casa Philips… joalheiro  do Paço… ourives da Rua do Piolho… modista da Rua do Ouvidor… modista da Ajuda… perfumista… florista… luveiro… dinheiro fornecido… Tudo somado, como Vossa Alteza vê, faz onze contos novecentos e oitenta. Digamos doze contos. – Doze contos? E, D. Pedro, estuporado, deu um salto da cadeira: – Doze contos? – Doze contos! E é preciso pagar. Os fornecedores vivem atrás de mim. Eu sempre a adiar… – Diabo, exclamou o moço num esbraseamento, pondo ás mãos na cabeça; diabo! Aonde vou eu achar tanto dinheiro?   D. Pedro recebia um conto de réis por mês. Aquela bagatela mal dava para a tença dos seus moços da câmara, para pagar os seus criados, fazer as suas esmolas, comprar os seus cavalos. Mas, D. João era sovina. Um unhas de fome. Não havia meio de sair do conto de réis. Por isso, diante da divida, diante daqueles doze contos de réis, o príncipe desnorteou-se. Não sabia como desentalar-se. O Plácido começou a sugerir planos: – Vossa Alteza procure o Targini,  tesoureiro de El Rei, conte o que sucedeu, peça o dinheiro. – Está maluco, Plácido? O Targini  faz um barulho de cair o céu! Arrebenta o escândalo por aí. Meu pai enlouquece… – Neste caso, antes de falar ao Targini,  Vossa Alteza fale com um valido do Senhor D.João. O Visconde de Magé ou o Conde de Parati. Vossa Alteza expõe o que há, pinta claramente o aperto, pede aos validos que convençam D. João a fornecer o dinheiro. D. Pedro detestava os validos do pai. Nunca lhes dirigia a palavra. Achava-os muito tolos e muito carolas. Dava-lhes a mão a beijar secamente. Nunca teve um sorriso para eles. Eis porque, sem vacilar, exclamou com vivacidade: – Deus que me guarde! Eu prefiro morrer a pedir um favor àqueles beatões. Aquilo é gente ruim. Uns pestes! Vamos bater noutra porta… E começaram ambos, o amo e o criado, a engendrar um meio de pagar as dividas.

 

DAS INSTRUÇÕES PARA O TROCO OU CÂMBIO DAS BARRAS DE OURO. (Sendo Francisco Bento Maria Targini   Tesoureiro Mor do Erário Real).

D. Fernando José de Portugal, do Conselho de Estado, Ministro Assistente ao Despacho do Gabinete, Presidente do Real Erário, e nelle Lugar  Tenente  immediato  à Real Pessoa, etc. Faço saber a Junta da Real Fazenda desta Capitania, que sendo presente ao  Regente Nosso Senhor a utilidade que resultaria ao Real Erário de se trocarem nelle por moeda corrente, segundo o peso e toque que constar das competentes guias, todas as barras de ouro, que dos territórios de Minas vem a esta cidade, e nella  gyram, para serem fundidas e reproduzidas na respectiva Casada Moeda e espécies cunhadas, aproveitando-se assim o direito de senhoriagem que tem diminuído consideravelmente pelo extravio das ditas barras: foi o mesmo Senhor servido, além de outras providencias, que ordem dou ao dito fim, determinar que essa Junta do Cofre de Depósitos, mandasse passar para um cofre particular, que fosse denominado o do câmbio das barras de ouro, a quantia de 50:000$000,para se applicar a esta especulação, a qual iriam servindo de novos fundos as mesmas espécies cunhadas recebidas da Casa da Moeda, incluída no seu producto a competente senhoriagem, para o que se fundirão separadamente estas partidas das de outro ouro, que a dita Casa levassem as partes para a mesma reducção, e isto segundo as intrucções inclusas, assignadas por Francisco Bento Maria Targini, a fim de se reconhecer nas occasiões dos balanços o computo da utilidade que a Real Fazenda haja resultado desta transacção. O que referida Junta assim terá entendido, e cumprira com o zelo, e inteligência que são próprios do seu Ministério, mandando affixar o competente edital para que chegue a noticia de todos esta real determinação. Venâncio Jose de Azevedo Bello a fez no Rio de Janeiro aos 5 de Abril de 1808 – Francisco Bento Maria Targini a fez escrever – D. Fernando Jose de Portugal.

DO ANO  BIOGRÁFICO  RIO DE JANEIRO SUPLEMENTO BIOGRÁFICO DE JOAQUIM MANOEL DE MACEDO FRANCISCO  BENTO  MARIA  TARGINI.  VISCONDE DE SÃO LOURENÇO.   Fls. 358  – – 3 5 9

“Natural do reino de Portugal, onde nasceu em fins do terceiro quartel do último século,(1756) e lá se educou, Francisco Bento Maria Targini veio  para o Brasil em data que não nos é possível determinar, sendo certo, que em princípios do século atual (errado, foi em 1783).   Era importante empregado da Junta de Fazenda do Ceará. Achando-se em divergência e desarmonia com seu superior funcionário ou chefe da Junta de Fazenda, Targini retirou-se para Portugal, onde sem duvida tinha na corte valiosa proteção; mas quase logo voltou para o Brasil, acompanhando a Família Real portuguesa em Novembro de 1807( veio antes, como Escrivão e Deputado da Junta de Fazenda Autônoma do Ceará, c r i a d a  p o r  C a r t a   Régia  d e  2 4  d e  ja n e i r o  d e   1 7 9 9). Criado em 28 de Junho de 1808 o Erário Régio e Conselho de Fazenda no Rio Janeiro, foi Targini nomeado Tesoureiro do Erário, tendo desde então importância manifesta, e favor privado na corte. Durante o período de treze anos e dois meses menos dias, com que se manteve na cidade do Rio de Janeiro a capital da Monarquia portuguesa correram, abusivamente exageradas, as despesas do Erário Régio, e diziam alguns que por isso muitas vezes faltava á ele o dinheiro. Outros, asseguravam que Targini  (a quem sobraram  desafetos e invejosos do favor que ele tinha na corte) adiava longa e excessivamente pagamentos no Erário, tendo agentes que se empregavam em descontá-lo. Aleive, ou verdade, pois que a suspeita é gravíssima, e não temos provas para considerá-la fundamentada, propalava-se como se fosse certa, e conta-se até curiosa anedota ou real, ou imaginária, e neste caso eivada de insinuação maligna.  

Diz-se que um D. Fernando, fidalgo português de tradicional excentricidade, fazia grande ruído e maltratava com acres palavras, e epigramas ferinos, á Targini, quando ia ao Erário receber honorários ou pensão, e lhe adiavam o pagamento por faltar dinheiro, e que Targini, queixando-se disso ao príncipe regente D. João, este, um dia de recepção no Paço, dissera a D. Fernando, depois de censurar-lhe o procedimento:  

 – Proíbo-lhe pronunciar palavra alguma que desaire ou injurie o Targini.

Cumpre lembrar que Targini  tinha de menos uma vista, era cego de um dos olhos. E a tradição assegura que o original D. Fernando ao retirar-se do Paço, encontrando-se com o Targini, indicara-lhe mudo, mas empregando mímica, muito expressiva, que se não lhe pagasse a pensão, lhe furaria o único olho com que via.

Targini voltara sobre seus passos a denunciar a D. João o novo insulto recebido, D. Fernando que o seguira, respondera ao príncipe regente, que ressentido o interrogara:

 — Senhor, Vossa Alteza Real proibiu-me pronunciar a palavra, e eu não falei. Apenas empreguei a mímica que é muda para ver se este homem me dá o dinheiro sem desconto.

 E a tradição, verdadeira ou falsa, acaba informando, que o príncipe regente á rir, dissera:  

— Targini, livra-te de D. Fernando, pagando-lhe á boca do cofre.  

Como quer que fossem as suspeitas e acusações, Francisco Bento Maria Targini  foi por ocasião do aniversário natalício da Rainha D. Maria I, e do batizando  de seu neto, o infante D. Sebastião, em 1811, agraciado com o titulo de Barão de São Lourenço, e tão estimado e válido continuou a ser na corte, que D. João, já Rei em 1819, o elevou de Barão de S. Lourenço á Visconde do mesmo título, quando distribuiu graças e títulos em honra do nascimento e batismo de sua neta a princesa D. Maria da Gloria, mais tarde Rainha de Portugal.  

Tipografia — PERSEVERANÇA, — Rua do Hospício N. 85. em1880.

 HONRADEZ DE TARGINI  

Nomeado, em 1783, como escrivão da Provedoria da Capitania do Ceará, o zelo de Targini, para com o fisco, levou o historiador Guilherme Studart, em seu livro “Notas para a História do Ceará”, a compará-lo ao “lendário cão da porta do Inferno, Cérbero, que tivesse agora sido posto ás portas do Tesouro Público”.

O novo Escrivão logo demonstrou sua capacidade de trabalho, e começou a granjear inimigos, como, aliás, aconteceu pelo resto de sua vida, “pelo zelo com que defendia os interesses do Erário, exigindo com rigor o pagamento dos impostos e o cumprimento das obrigações, á chusma ávida dos contractadores.”, como nos conta Manuel Emílio Gomes de Carvalho em “Os deputados brasileiros nas Cortes Gerais de 1821”.

Também Oliveira Lima, em seu livro “O Movimento da  Independência”, informa que, pelo rigor com que cumpria suas obrigações, Targini acabou “malquistando-se com os governadores e ouvidores por seus excessos no combate a práticas administrativas desonestas. Malquistou-se com os governadores, por questões do fisco e com os ouvidores, por denunciar seus furtos na arrecadação dos bens de defuntos  e ausentes.

Baseado em documentos e testemunhas, Guilherme Studart conclui, sobre a personalidade do principal inimigo de Targini, o governador João Baptista de Azeredo Coutinho de Montaury:

“Não censuro, portanto, Montaury porque teve de arcar com o clero, os ouvidores, os oficiais de Fazenda, os simples particulares, mas porque arcou por motivos inconfessáveis, foi injusto muitas vezes, e quase sempre o provocador.

Continua Studart:

Targine, pois, não podia deixar de figurar também nas lutas, que Montaury sustentou na Capitania.

“Targini”, diz uma testemunha ocular, “tem sofrido da parte do capitão-mor maiores vexações e injúrias até o ponto de lhe tirar toda a comunicação e sociedade, já prendendo e perseguindo aqueles que o freqüentavam, ainda mesmo em razão do seu ofício, já difamando, já cavando-lhe ruínas com o General de Pernambuco, já em contas por ele dadas imediatamente a S. Majestade, pintando-o como revoltoso, intrigante, sedicioso, tudo meras calúnias e tudo a fim de o perder de todo ou de o pôr em desesperação tal que desamparando o seu lugar, que honradamente serve, e retirando-se da capitania, como muitos outros, tenha menos uma testemunha autêntica das suas manobras e tiranias”.

 Informa ainda Guilherme Studart:

Outro ouvidor foi nomeado, por provisão de 11 de outubro de 1785 e empossado a 25 de janeiro do seguinte ano. Tratava-se de Manuel Magalhães Pinto Avelar de Barbedo.

Como o próprio Avelar relata, e que revela a má índole do Governador do Ceará, Montaury tratava-o “em os primeiros tempos com mil cortejos, obséquios e donativos, tudo determinadamente a fim de me comprar, porém eu, que de longe avistava o alvo a que tudo se dirigia, como bom entendedor, sempre evitava todas.

Quando Montaury percebeu que não dobraria o novo Ouvidor, cujas funções do cargo queria dominar, iniciou, também contra ele, sua campanha difamatória.

Avelar lutava e ousava fazer valer os seus direitos e importância do cargo que ocupava, principalmente, como informa Guilherme Studart, por encontrarem-se a seu lado todos aqueles a quem revoltavam e exasperavam os desmandos e as violências do governador.

Entre eles, informa Studart, um merece especial menção:  É o Escrivão da Fazenda Real de então, Francisco Bento Maria Targini,  o futuro Visconde de São Lourenço.

PARA O  CONDE DE SAMPAIO.

(Carta do enviada pela Cortes de Portugal, para o Conde de Sampaio, cujas ordens foram cumpridas  no navio “Princesa Imperial”, que trazia D. João VI, seus ministros e conselheiros. As ordens visavam impedir que os partidários mais conservadores e contrários à perda dos poderes absolutos do rei o acompanhassem em sua chegada a Lisboa e lhe dessem apoio para uma contra revolução).Illmº e Exmº Sr.

Às Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa

Sendo notório que S. M., em seu regresso a este Reino, é ainda acompanhado de varias pessoas que têm incorrido na indignação pública, por serem geralmente conhecidas por autores das desgraças da sua pátria, quais são o Conde de Palmella, Conde de Paraty, os Lobatos, o ex-ministro Villa Nova Portugal, Rodrigo Pinto Guedes, Targini, o Visconde do Rio Secco, e os Monsenhores Miranda e Almeida, e João Severiano Maciel da Costa; E considerando que o desembarque de tais indivíduos  envolve  eminente risco da sua própria segurança: Ordenam que a Regência do Reino, por meio da Deputação que mandar a bordo cumprimentar El Rei, represente a necessidade de não permitir que semelhante  pessoas desembarquem, e venham assim perturbar o público regozijo com que S. M. é  esperado pelo heróico povo português.  O que V.ª Ex.ª fará presente na Regência do Reino, para sua inteligência e execução.

 Paço das Cortes, 5 de Julho de1821.

  João Baptista Felgueiras.

 (Juiz Desembargador do Supremo Tribunal de JustiçaDeputado e 1.º secretário das Cortes Constituintes (eleito a 26 de Janeiro de 1821)

Fls. 207 —“DESPACHOS E CORRESPONDÊNCIA DO CONDE DE PALMELLA”   250px-Cons.João Baptista_Felgueiras  JOÃO BAPTISTA FELGUEIRAS-  Desembargador e 1.º secretário das Cortes Constituintes.   Pedro_de_Sousa_Holstein Duque de Palmella DUQUE DE PALMELLA Nota: O Futuro Duque de Palmella, requereu que fosse permitido seu desembarque, por ser um Liberal, no que foi atendido.

 

TARGINI ESCREVE LETRA DE MÚSICA PARA BANDA MILITAR – 1817 Bandas Militares no Brasil: difusão e organização entre 1808-1889  Fernando Pereira Binder   VOLUME I  São Paulo- Setembro 2006

Dissertação de Mestrado apresentada ao

Programa de Pós-graduação em Música

do Instituto de Artes da Universidade

Estadual Paulista – UNESP, como

exigência parcial para a obtenção do título

de mestre.

“Com as agitações políticas em Pernambuco, relativas às revoluções de 1817 e 1825, as bandas militares tomaram parte em solenidades e, de maneira bastante mais dramática, contribuíam para outro tipo de demonstração de ordem e poder: a execução dos condenados à morte.

Um grande ato foi montado para o enforcamento dos condenados pela Revolução Pernambucana de 1817.

A tropa de linha, enviada do Rio de Janeiro e de Portugal, com cerca de 4.000 soldados, foi colocada em duas alas desde o Forte das Cinco Pontas, onde os condenados estavam presos, até o Campo do Erário (atual praça da Republica), onde estava o patíbulo.

Às nove horas da manhã, 800 soldados da guarnição de Recife, presos por tomar parte na revolta, marcharam desarmados ao “som de suas músicas militares”, isto é, acompanhados por suas bandas, da prisão até o Campo onde assistiram à execução.

Durante o enforcamento foi executado um hino “cantado a duo e respondido pelo canto de toda a tropa e espectadores, tudo acompanhado pela fragorosa música instrumental de todos os corpos” (PEREIRA DA COSTA, 1951, p. 502, v. 7). Segundo Pereira da Costa apurou…… cada cabeça que rolava do alto do patíbulo era saudada com a entoação de um hino cuja primeira audição se verificou neste dia, no momento em que o patriota Antônio Henriques Rabelo era atirado do alto da forca pelo algoz, com o pescoço preso ao laço do baraço, de mãos atadas para trás, e extorcendo-se às convulsões da morte (PEREIRA DA COSTA, 1951, p. 502, v. 7).

Pereira da Costa (1918, p. 196-197) recolheu letra e melodia deste hino, que denominou por “Hino Realista” e a qualificou como uma “infernal cantata”.  Ele acreditava que a obra fosse de autoria de Marcos Portugal, sob a letra de Manuel Joaquim da Silva Porto, e que a obra teria sido expressamente composta para as tropas enviadas do Rio de Janeiro para sufocar a revolta (PEREIRA DA COSTA, 1951, p. 505, v. 7). De fato, a obra foi composta no Rio de Janeiro, mas seu autor foi Sigismund von Neukomm e aparece no catálogo do compositor austríaco como “Hymne Martial”, com a data 25 de abril de 1817 e a indicação de “orchestre militaire”, isto é, banda militar.

A letra era de autoria do Barão de São Lourenço, Francisco Bento Maria Targini (ANGERMÜLLER, 1977, p. 80). Sigismund von Neukomm, Hino Marcial cantado no enforcamento dos condenados à morte em razão da Revolução Pernambucana, 1817.   CORO Vamos todos inspirados Pelo Marte Tutellar, Resgatar um povo afflicto, O Melhor dos Reis vingar. I Valorosos Lusitanos A victoria por vós chama, A trombeta já da fama. Vossos nomes vai cantar. II Já de Jano as portas abre A mais justa e santa guerra, Quem do nada fez a terra Nos ordena triunfar III Nossas béllicas bandeiras Avistando o vil enxame, Pelo Atroz remorso infame Já se sente agrilhoar. IV A nós deu Joane o Justo Porque o nosso valor presa. Esta nobre, ilustre empreza Que há de o Trono sustentar V Lá no Templo da Memória Juntareis mais estandartes Aos que já em tais partes Vosso zelo fez ganhar VI Respirai vassalos dinos Contra a vil traição e morte De El Rei vem a gente forte Vossos lares amparar VII Viva, Viva de Bragança Viva o bom Herdeiro Augusto Que d’um jugo torpe, injusto Vem seu povo libertar.            Publication: Morning Chronicle Location: London, Middlesex Issue Date: April 16, 1828

King John VI  was rather of a savage character, particularly after he gave up the amusements of hunting and riding, of which he was, in his younger days, extremely fond. He was then considered as one of the most graceful and bold riders in Portugal. At the period of his departure for Brazil, in November, 1807, it was estimated that be had with him about one million sterling in gold, which sum , it was supposed, was doubled at the time of his return to Europe. T h e fifth of the gold dust and diamonds obtained in his Brazilian dominions belonged to himself. At the time of his death he is estimated to have left about two million? And a half sterling, exclusive of diamonds, and he was one of the oldest shareholders in the O Porto Wine Company. He has held shares which belonged to his father. Theportion of his property, which as already been distributed among his heirs, is his diamonds, and about 250,060 L sterling, the amount stipulated in a secret article of the treaty between Portugal and Brazil, for the acknowledgement of the independence of the latter to be allowed him as an indemnity for his fixed property left behind in Brazil, viz. the estate of San Cristoval, the present Imperial residence, and that of Santa Cruz, formerly belonging to the Jesuits, and considered as one of the most beautiful situations in Brazil. The above sum , we have reason to believe, was paid by the agents of the Brazilian Government in L o n d o n, & divided in the proportion of abot 50,000/.to each surviving child. T h e property left by the King in foreign stocks has not, we believe, been yet touched. It was always supposed that the late K ing had a considerable sum in the French Funds, under the charge o f Targini, long the Treasure – General of Portugal, and afterwards raised to the rank of Viscount San Lourenzo. He was the translator of Pope’s Essay on Man into Portuguese, and published a beautiful edition of this piece. The Viscount was a private agent of the King in his Money  concerns.

IMAGENS NA SOMBRA: ANÁLISE DAS MARCAS D’ÁGUA DO MANUSCRITO «A CONCEIÇÃO», DE TOMÁS ANTÓNIO GONZAGA, EXISTENTE NA BIBLIOTECA NACIONAL BRASILEIRA

                                            Ana Virgínia Pinheiro*

Introdução

No cofre da Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional brasileira há um poema épico incompleto, manuscrito em português, sobre papel artesanal, intitulado «A Conceição».

O poema é reverenciado como obra de Tomás Antó­nio Gonzaga.

O manuscrito foi comprado junto com a Ode ao Conde dos Arcos, 1807, de Francisco Bento Maria Targini11, em 36 páginas, completa, manuscrita em tinta

ferrogálica sobre papel artesanal, que tem como marca d’água a alegoria da Britânia12, associada à logomarca Phipps & Son 1807.

O manuscrito foi divulgado, apenas, em 21 de agosto de 1958, no Primeiro Simpósio de Filologia Românica, após ter sido «descober­to», através do catálogo da Divisão de Manuscritos da Biblioteca, por Manuel Ro­drigues Lapa13, filólogo e historiador literário português;

TARGINI, Franscisco Bento Maria. Ode ao Illlmo. e Exmo Snr. Conde dos arcos do Conselho de S. A. R.Vice Rey, e Capitão General do mar, e Terra do Estado do Brazil, etc. etc. etc., offerecida, e recitada no Dia dos seus faustissimos annos. [Rio de Janeiro], 1807. 36 p. mss. (BNBr/ mss 1-07,15,001).
Ana Virgínia Pinheiro é Mestre em Administração Pública, Bibliotecária da Divisão de Manus­critos da Fundação Biblioteca Nacional e professora da Escola de Biblioteconomia da UNIRIO. Tem vários estudos publicados em sua área, dos quais se destaca o premiado Que é livro raro?

 

“MEMÓRIAS DO MARQUÊS DE FRONTEIRA E D’ALORNA”

No magnífico livro de memórias  do Marquês de Fronteira e D’Alorna, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto, MEMÓRIAS DO MARQUÊS DE FRONTEIRA E D’ALORNA, na página 12 do Terceiro Volume, encontra-se curiosa notícia de Francisco Bento Maria Targini, o Visconde de São Lourenço, que demonstra o espírito irônico que empregava em suas conversas, sempre brincando com as críticas maldosas que seus inimigos políticos lhe faziam.

Assim nos conta, o Marquês:

“Em casa de José Francisco Braamcamp, para quem eu tinha levado cartas de recomendação do meu amigo, tutor e curador, Desembargador Pimenta, reuníamo-nos todos, os poucos emigrados da época. A partida era menos animada do que a da casa do Conde de Linhares: apresentava certo cunho de melancolia, não obstante a amabilidade das filhas do dono da casa, D. Maria Clara e D. Maria Ignacia Braamcamp. O jogo, a módico preço, era o principal divertimento do dono da casa.

Ali encontrei o Comendador Targini, Tesoureiro Mor do Tesouro, durante o tempo em que El-Rei residia no Rio de Janeiro, o qual estava em Paris e dizia que não queria nada, nem com o pai, nem com o filho. E que tinha abandonado a Pátria por causa dum e doutro. Encontrando-se ali com alguns indivíduos que muito o acusavam nas Cortes, o velho Targini, cheio de instrução e espírito, vingava-se, fazendo-lhes epigramas.

Agostinho José Freire tinha dito no Congresso que targinar era sinônimo de roubar. Estando a jogar o voltarete, com Targini, numa das reuniões, esqueceu-se duma paga, e o seu velho parceiro disse-lhe, muito seriamente: Sr. Freire, parece-me que targinou agora…”

 

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