A PRISÃO DE FRANCISCO BENTO MARIA TARGINI, VISCONDE DE SÃO LOURENÇO

 

FORTALEZA DE SANTA CRUZ EM NITEROI

FORTALEZA DE SANTA CRUZ EM NITEROI

 

I – NOMEAÇÃO PARA O ERÁRIO REAL

Uma das principais medidas administrativas do Regente D. João, ao chegar ao Brasil, foi criar, por Lei, o Erário Régio, juntamente com um Conselho da Fazenda, nos moldes como já havia em Portugal, adaptando-o agora para funcionar em sua mais importante Colônia.  Estabeleceu-se que a instituição seria administrada por um Conselho e seria a única instância por onde se expediriam todos os negócios concernentes à arrecadação, distribuição e administração da Real Fazenda, abrangendo o Brasil, Portugal, Algarve, Ilhas da Madeira e Açores, e os Domínios Ultramarinos da África Oriental e Ocidental e da Ásia Portuguesa.

A missão era hercúlea e sem igual, no mundo inteiro. Os membros que comporiam o Conselho da Fazenda e demais funções teriam de ser os mais preparados, experientes, cultos e confiáveis. Condição “sine qua non” seria a de serem formados pela famosa escola “Aula de Comércio” de Portugal

A função que mais exigia uma sólida formação técnica e de bom administrador era a de Tesoureiro Mor. Para tanto foi lembrado o nome de Francisco Bento Maria Targini, que se encontrava no Ceará, como Escrivão e Deputado da Junta de Fazenda Autônoma daquela Capitania.

Targini reunia todos os requisitos exigidos para ocupar o cargo. Descendia de famosos técnicos italianos, que na qualidade de mestres em contabilidade eram contratados pelos reis, nobres e comerciantes para cuidarem de seus bens.  Desde cedo, foi ensinado e treinado por seu avô, Christóvão Pasquale Marques Targini, para adquirir o conhecimento das matérias necessárias para aplicação dos modernos métodos e técnicas de Comércio, necessárias à formação de um bom guarda livros. Além disto, nascido no século do Iluminismo, recebeu ensinamentos de francês, inglês, filosofia, retórica. Tornou-se apto para exercer qualquer cargo que tratasse de finanças e comércio, nas empresas privadas e nos serviços públicos. Era formado pela Aula de Comércio, escola fundada pelo Marquês de Pombal, onde se exigia que os alunos, para serem ali recebidos, deveriam ser “probos, ter boa fama e boa-fé”.

Assim que terminou seu curso, foi premiado com a indicação para exercer o ofício de guarda livros na contadoria do Hospital Real de São José. Ali se sobressaiu por sua erudição. Em homenagem prestada a um dos médicos do Hospital, dedicou-lhe uma ode: ”À Memória de Bartholomeu Montano” demonstrando seus dotes para a poesia.

Logo foi convidado para auxiliar o Marquês de Pombal e, tendo mostrado sua capacidade, com apenas 20 anos foi nomeado funcionário do Real Erário, como Escrivão da Fazenda Real de Portugal.

Em 1783, com 27 anos, veio para o Brasil, servir como Escrivão da provedoria da capitania do Ceará, até 1787, quando volta a Portugal, por ter se indisposto com o governador, João Batista de Azevedo Coutinho de Montaury.

(Veja-se a página “Targini np Ceará”, neste site).

Em 1799 foi nomeado o primeiro Escrivão e Deputado da Junta de Fazenda do Ceará, Capitania recém desmembrada da de Pernambuco.

Ali serviu até 1808 quando D. João VI, recém chegado ao Brasil, com sua Cortr, o mandou chamar, para compor o Conselho, no cargo de Tesoureiro Mor, por Alvará de 13 de outubro de 1808.

 

II – CRIANDO INIMIGOS

Para o Rei, Targini era um fiel auxiliar, mas desde sua primeira nomeação, em 1783, como Escrivão da Provedoria da Capitania do Ceará, angariou muitos inimigos. Isto tinha como causa sua rigidez no trato com o dinheiro público, impedindo a corrupção que já grassava entre muitos administradores do Brasil colonial.

O zelo de Targini, para com o fisco, levou o historiador Guilherme Studart, em seu livro “Notas para a História do Ceará”, a compará-lo ao “lendário cão da porta do Inferno, Cérbero, que tivesse agora sido posto ás portas do Tesouro Público”.

Muitos nobres que acompanharam D. João VI, quando de sua vinda ao Brasil, em 1808, detestavam o Tesoureiro do Real Erário e contra ele divulgavam histórias infamantes, pois este dificultava-lhes a receber o dinheiro que constantemente iam pedir no palácio, para seus gastos. Targini tentava sanear as finanças, mas as despesas eram muitas. Era ele o todo poderoso dono da chave do cofre, que custava a abrir, já que com a mudança da Corte para o Brasil os gastos foram muitos e as minas de ouro e diamantes já não produziam como antes.

Somente com a ordem pessoal de D. João VI, abria-lhes a bolsa. O mesmo valia até para D. Pedro, o Príncipe Real, que, cheio de dívidas, não ousava pedir-lhe mais dinheiro do que a módica pensão que seu pai lhe destinava.

Os atrasos e cortes nos pagamentos levavam o povo a dizer que Targini ficava com o dinheiro para si.

Havia uma única exceção: O Rei. As retiradas do Monarca, embora fossem anotadas por Francisco Bento Maria Targini, nos livros de registro de saídas, não precisavam conter indicação de como seriam empregadas.

Conta Joaquim Manoel de Macedo, no seu “Suplemento Biographico”, que D. João VI assistiu um bate boca de um nobre português, D. Fernando, com Targini, a respeito de uma quantia a maior que insistia em receber, e o Tesoureiro Mor, em obediência aos desejos do Rei, pela má situação do Erário, lhe pagara a menor. D. Fernando, irado, acusava Targini de querer ficar com o dinheiro e fazia gestos que davam a entender que furaria o único olho com o qual Targini enxergava. Foi quando D. João interviu severamente e disse:

Proíbo-lhe pronunciar palavra alguma que desaire ou injurie o Targini.

D João VI sabia que Targini não se apropriava do dinheiro e era honesto, pois as ordens para fechar a bolsa partiam dele. Targini não se defendia das acusações, pois a confiança do monarca lhe bastava.

O poder que o D. João VI conferia ao Visconde de São Lourenço e a influência que este exercia na Corte como defensor da política absolutista granjeava-lhe muitos inimigos, principalmente os seguidores dos princípios da nascente política liberal. Este estado de coisas acabou por desencadear uma cruzada contra ele, com o objetivo de derrubá-lo politicamente e afastá-lo do Rei.

Seus maiores opositores eram alguns nobres e militares, que tinham, como reforço, a campanha, sem tréguas, que o jornalista Hypólito da Costa lhe fazia, de Londres, em seu jornal Correio Brasiliense, fundado exclusivamente para propagar as novas ideias liberais.

Esta animosidade, sempre crescente, resultou em uma campanha junto ao povo, que passou a pressionar o Rei para que afastasse do cargo o Tesoureiro Mor.

III – A REVOLUÇÃO DO PORTO EM 1920

Após D. João VI permanecer no Brasil por treze anos, o povo português, muito insatisfeito com a ausência de seu soberano, passou a exigir sua volta imediata.

Os portugueses já não eram mais aquele povo submisso aos desejos absolutos do rei, que havia sido deixado pela Corte, em 1808. Influenciados pelas novas ideias de se ter um governo representativo, fundado no liberalismo, como já acontecia em grande parte das monarquias europeias e povos das Américas, exigiam a volta do Monarca para jurar uma Constituição liberal, pela qual seu Poder ficaria limitado.

Em 1820, a demora de D. João VI em atender seus anseios, redundou na explosão de uma revolta, que se iniciou no Porto, obteve a adesão de Lisboa e se alastrou por todo Portugal, No Brasil, várias províncias passaram a apoiar Portugal, exigindo também que o rei assinasse a Constituição liberal proposta pelas Cortes Portuguesas.

Francisco Bento Maria Targini, sempre fiel ao Rei, continuava a encoraja-lo para que não abrisse mão de seu Poder de Monarca absoluto. As ameaças que sofria, por parte dos ministros liberais e do povo insuflado, aumentaram, e espalhou-se a notícia de que sua casa seria invadida.

D João VI, muito contra sua vontade, apoiado somente pelos poucos Ministros, que ainda se arraigavam aos princípios de um poder absolutista, foi obrigado a capitular e aceitar as reivindicações do Povo.

 

 III – CAUSAS DA PRISÃO DE TARGINI

 Preocupado com a segurança de seu tesoureiro mor, D. João VI exonerou-o do cargo e ordenou que, imediatamente, o levassem, junto com alguns outros impopulares integrantes de seu governo, para a Fortaleza de Santa Cruz e que se fizesse todos súditos saberem que haviam sido presos. Mandou que se abrisse um inquérito, para apurar se havia sido feito algum desvio por parte de Targini, como o acusavam. Isto foi suficiente para acalmar seus inimigos.

Localização do forte de Santa Cruz, onde francisco Bento Maria Targini, Visconde de São Lourenço, ficou detido.

Localização do forte de Santa Cruz, onde francisco Bento Maria Targini, Visconde de São Lourenço, ficou detido.

Por outro lado, D. João VI avisou-o para que se preparasse para embarcar, com a Corte, rumo a Lisboa. Iria como encarregado pelo tesouro que, assim como fora trazido de Portugal, em 1808, estava agora sendo embarcado de volta, por ordem do soberano.

A Capital do reino, assim como já fora considerada Coimbra, Lisboa e o Rio de Janeiro, era sempre onde o Rei e Sua Corte fixava sua residência e o Erário seguia junto.

Após alguns dias, outros presos políticos foram libertados, menos Targini, que era o mais visado.

Entendendo o Visconde de que não havia necessidade de ficar retido, encaminhou requerimentos para sair, pois seu desejo era passar suas últimas horas no Brasil ao lado de sua mulher e suas  filhas. Por outro lado, precisava fazer sua defesa, no inquérito, e apresentar suas contas para exame.

Com a demora em se atender seu pedido, escreveu uma carta para seu amigo Silvestre Pinheiro Ferreira, Ministro da Guerra e dos Negócios Estrangeiros, solicitando-lhe que providenciasse sua soltura:

“Deste sítio de dor e aflição levanto a voz a implorar novamente o seu auxílio.  V. Ex.ª  era meu amigo, V. Ex.ª tem bom coração, V. Ex.ª creio firmemente, que conhece a minha inocência, mande-me pois V. Ex.ª para minha casa, preso ou solto, para tratar da minha defesa, responder às invectivas dos meus contrários, e morrer nos braços da minha consorte e de uma família que me ama”.

Com a permissão do Rei, Targini retornou a sua residência, embora em prisão domiciliar, pois era necessário acalmar seus desafetos, enquanto as prestações das suas contas não fossem aprovadas.

Finalmente, por mais que vasculhassem suas anotações e registros, nada se encontrou que indicasse o mínimo desvio. Suas Contas, em perfeita ordem, demonstravam o zelo e competência com que sempre agira, desde o tempo em que fora escrivão no Ceará.

A incumbência dada secretamente a Targini, por D. João VI,  de que com ele embarcaria como encarregado pelo tesouro que retornava a Lisboa,  é contada em uma crônica sobre o Rei de Portugal, publicada em Londres, no Morning Chronicle, em 16 de abril de 1828.

Morning Chronicle

Location: London, Middlesex

Issue Date: April 16, 1828

King John VI was rather of a savage character, particularly after he gave up the amusements of hunting and riding, of which he was, in his younger days, extremely fond. He was then considered as one of the most graceful and bold riders in Portugal. At the period of his departure for Brazil, in November, 1807, it was estimated that be had with him about one million sterling in gold, which sum, it was supposed, was doubled at the time of his return to Europe. The fifth of the gold dust and diamonds obtained in his Brazilian dominions belonged to himself. At the time of his death he is estimated to have left about two million? And a half sterling, exclusive of diamonds, and he was one of the oldest shareholders in the O Porto Wine Company. He has held shares which belonged to his father. The portion of his property, which has already been distributed among his heirs, is his diamonds, and about 250,060 L sterling, the amount stipulated in a secret article of the treaty between Portugal and Brazil, for the acknowledgement of the independence of the latter to be allowed him as an indemnity for his fixed property left behind in Brazil, viz. the estate of San Cristovam, the present Imperial residence, and that of Santa Cruz, formerly belonging to the Jesuits, and considered as one of the most beautiful situations in Brazil. The above sum , we have reason to believe, was paid by the agents of the Brazilian Government in L o n d o n, & divided in the proportion of about 50,000/.to each surviving child. The property left by the King in foreign stocks has not, we believe, been yet touched. It was always supposed that the late King had a considerable sum in the French Funds, under the charge of Targini, long the Treasure – General of Portugal, and afterwards raised to the rank of Viscount San Lourenzo. He was the translator of Pope’s Essay on Man into Portuguese, and published a beautiful edition of this piece. The Viscount was a private agent of the King in his money concerns.

IV – TESTEMUNHOS DE HISTORIADORES SOBRE A HONRADEZ DE TARGINI

1 –TESTEMUNHO DO HISTORIADOR MANOEL EMÍLIO GOMES DE CARVALHO, NO LIVRO “OS DEPUTADOS BRASILEIROS NAS CORTES GERAIS DE 1921”, SOBRE A HONRADEZ DE FRANCISCO BENTO MARIA TARGINI

Entre diversos historiadores, provados por documentos, encontram-se os relatos da inocência de Francisco Bento Maria Tergini, Visconde de São Lourenço. Um dos melhores testemunhos encontra-se no livro do historiador Manuel Emílio Gomes de Carvalho “Os deputados brasileiros nas Cortes Gerais de 1821”, em passagem que transcrevo.

“Não devemos encerrar o capitulo sem falar de Targini, cujas contas de tesoureiro-mor foram aprovadas durante a administração de Arcos e que atassalhado de todos com violência inaudita, simboliza o conceito formado pelo português e pelo brasileiro dos que lidam com dinheiros públicos: todos mais ou menos ladrões.

Quando Thomaz Antônio organizou o ministério de 24 de junho reservou para si os negócios do reino e deles separou a administração da fazenda, a qual veie desse modo a constituir uma nova secretaria, confiada a João Paulo Bezerra.

Parece que uma das razões de semelhante reforma estava, não na falta de ambição nem no desejo de aliviar-se de trabalhos e cuidados inerentes á gestão das finanças, mas no empenho de fazer fiscalizar convenientemente o tesoureiro-mor, acusado de peculato pela voz pública. Quem melhor do que Bezerra para tal encargo? Era enérgico e honrado, odiava Targini e era rabugento. Nove meses depois morria o titular da nova pasta e inteiramente congraçado com o subalterno. Os negócios da fazenda voltaram de novo á secretaria do reino, porque Thomaz Antônio resolvera surpreender as fraudes desse homem detestado e detestável que fascinava os chefes e deslustrava o governo. Como o marquês de Aguiar, como o conde da Barca e Bezerra, todos varões honrados, Thomaz Antônio, que os valia pela moralidade, passou a estimar e a defender o barão de São Lourenço.

O povo, que acolhia com alegria a substituição dos gestores da fazenda na esperança da exautorarão de Targini, desenganado esbravejava com mais e mais violência ou na imprensa portuguesa de Londres desabafava-se com bom humor.

 Afirmava-se com segurança que o governador Montaury o expulsara da escrivania do Ceará por peculato; que com vencimentos anuaís de oito mil cruzados despendia trinta mil e ainda lhe restavam recursos para construir um palacete em Matacavalos e guarnece-lo de alfaias sumptuosas, tudo representativo de quatrocentos mil cruzados. Na farta distribuição de mercês por ocasião do batizado da princesa Maria da Gloria estalou grosso escândalo: o barão de São. Lourenço elevado a visconde.

Sem mais indignação para tanta desfaçatez o povo riu, e por toda a parte se cantou a quadra que os velhos ainda repetem:

   Quem furta pouco é ladrão,

  Quem furta muito é barão,

  Quem mais furta e esconde

  Passa de barão a visconde[115].

  Ha prova de que o monarca sabia do desconceito do tesoureiro-mor. Em 3 de março D. João VI julgou necessário pôr em custodia quatro personagens, dois desembargadores e um almirante, cujas opiniões políticas n’essa época de efervescência, consoante o soberano, podiam servir de pretexto a que fossem agredidos por vinganças pessoais, e Targini. Targini, porém, foi recluso, não em virtude de suas ideias políticas, que não as tinha, senão para evitar que o povo aproveitasse o ensejo para o apedrejar, sem aguardar o exame das contas da tesouraria.

Volvido D. João VI à pátria, continuou a averiguação da responsabilidade do tesoureiro sob a vigilância de D. Pedro e do seu principal ministro, e estes a despeito de amarem a popularidade tiveram de reconhecer a exação das contas. Ainda mais, verificada a situação pecuniária do antigo servidor o regente por um d’esses rasgos de generosidade que lhe eram habituais, concedeu-lhe pelo decreto de 4 de maio a pensão de um conto e seiscentos mil reis.

Foi tão grande a surpresa que suspeitaram da moralidade dos juízes, e ao libelo contra D. Marcos, como designavam familiarmente o conde dos Arcos, ajuntaram esse artigo.

Eram verídicas as acusações contra S. Lourenço? Não o acreditamos.

Certamente os diferentes ministros sob cujas ordens servia o tesoureiro, homens honrados e ciosos de boa fama, alguns, até, seus desafetos, não deixaram de proceder a diligencias acerca das arguições contra o subordinado e reconheceram que tudo eram calúnias, desde a exclusão ignominiosa da junta do Ceará aos gastos excessivos; calúnias determinadas, porventura, pelo zelo com que defendia os interesses do erário, exigindo com rigor o pagamento dos impostos e o cumprimento das obrigações á chusma ávida dos contratadores.

Targini  foi provavelmente mais uma vítima da maledicência e da calúnia que caracterizam a raça portuguesa com relevo, que lhe não dão os olhos escuros e a cabeleira farta e negra; vícios já assinalados com vigor, embora em tom faceto, pelo padre Antônio Vieira.

Denegriram as individualidades mais altas de Portugal, Camões e Affonso de Albuquerque, e continuam a deslustrar os vultos proeminentes do velho reino e de sua antiga colônia. No Brasil, políticos, jornalistas, administradores, todos os que se singularizam em qualquer ramo de atividade humana, podem não alcançar honras nem riquezas, mas certamente lhes não faltará esse punhado de lama, que nem sempre o tempo faz despegar da reputação.

Constituiria um capitulo interessante de psicologia social o estudo das causas do desenvolvimento pasmoso dessa forma da perversidade humana na família luso-brasileira. A inquisição e o sistema policial do marquês de Pombal, que ocultavam ao acusado o nome do denunciante e das testemunhas adversas, e, mais tarde, a ignominia das testas de ferro, envilecedores da nossa imprensa, fazendo na realidade irresponsáveis a maledicência e a calúnia, contribuíram certamente para avigorar uma tendência que não precisava senão de estimulo para se tornar uma das taras da raça. ”

 

2 – RELATO DO HISTORIADOR GUILHERME STUDART EM SEU LIVRO ANOTAÇÕES PARA A HISTÓRIA DO CEARÁ

Em 1799, chega a Fortaleza o primeiro governador do Ceará, Bernardo Manoel de Vasconcelos.

O novo governador revelou-se na altura da comissão de que o incumbiram buscando pôr-se a par com as necessidades mais palpitantes da colônia, que ia administrar, e para isso acercou-se de pessoas, que por já haverem habitado n’ela, estavam mais no caso de orientá-lo.

Entre elas, figura mais salientemente, Francisco Bento Maria Targini, a vítima de Montaury, que então estava em Pernambuco e constituiu-se seu principal mentor, sua Egeria.

As relações estabelecidas entre os dois explicam de sobejo o interesse com que se empenhou o governador por ter a Targini como seu auxiliar na administração das finanças da Capitania.

Com as informações, que colhera de Targini e outros, confeccionou Bernardo de Vasconcellos um minucioso relatório, verdadeira preciosidade, que ora ofereço aos que me honram com a leitura, certo de que ser-me-ão agradecidos por ministrar-lhes uma exata noticia do estado do Ceará no começo do presente século.

Atenda o leitor para o valor histórico dessa peça. Ella não é datada, mas de seu conteúdo inferem- se perfeitamente a época e o local em que a traçou o autor.

 Il.ª Exc.ª  — Depois que Sua Majestade foi servida prover-me Governador da Capitania do Siará Grande, atendendo as obrigações do meu cargo entrei a adquirir algumas particulares informações do estado atual daquela Capitania, para com estas noções firmar antecipados acordos para desempenhar os meus ofícios, que me incorrerem em beneficio daqueles Povos, aumento de comercio e Património Régio, não querendo entrar na minha regência destituído destas primeiras Luzes.

Somente achei em Francisco Bento Maria Targíne perfeitos conhecimentos da Capitania mostrados por princípios físicos e políticos, que bem descobrem o seu valor, o quanto geme, e as superiores providencias, que necessita.

Pela belíssima instrução deste sujeito vim a conhecer o que devo fazer presente a V. Exc.ª.

É a capitania do Siará bem considerável pela sua grandeza, como o mostra um mapa bem circunstanciado e que o mesmo hábil Targini traçou de todo o seu território. Pela sua ilustração se conhece ser o ar saudável, o céu sereno, campinas amenas, serras fertilíssimas, rios caudalosos, maiormente na estação das águas. Os naturais Tapuias ou Caboclos, (a que vulgarmente chamamos índios) vivendo naquela indolência, que influi nos seus habitantes os climas ardentes, contudo são susceptíveis de estímulos e de condições de obrarem quanto um superior sábio e ativo lhes inspirar.

O dito Targini que no mais alcantilado das serras comunicou-se com seus maiorais, atento aos seus discursos, o fizeram lembrar as deparadas máximas dos Lokes, dos Montesquieux, e dos Filaters, convencendo-se que aqueles homens animados tão somente das luzes da natureza, não deixam de ser sábios e menos felizes do que nós somos, neste século da mais apurada Filosofia.

Examinando o Mapa (confeccionado por Targini) vejo que a Capitania do Siara tem sete Povoações de índios denominadas Arronches, Mecejana, Soure, Monte-mor-velho, Monte-mor-novo, Villa Viçoza, e Crato, hoje consideravelmente diminutas pelo vexame que lhe causa o bárbaro costume, dos Governadores, Ouvidores, Diretores e Vigários arrancarem os filhos dos braços de seus pais e os mandarem servir a diferentes Capitanias, donde jamais voltam a sua Pátria, debilitando-se assim.

Não se pode arguir a menor impossibilidade para a navegação ser direta a esta Corte, pois bem se conhece que as barras de Mossoró, de Jaguaribe, do Acaracà e do Camosim dão suficiente entrada a corvetas pequenas, e por haverem samancas de maior lote, que entram naqueles Portos pelo comercio das carnes e várias embarcações que tem arribado ao Siará.

Em o ano de 1785 na enseada de Mocuripe, junto à vila da Fortaleza, entrou uma galera francesa, que ia para a Costa da África fazer comércio de escravatura, que não podendo dobrar o Cabo de S. Roque pelas dificuldades referidas e falta de água, lenha e conserto, veio buscar tudo naquele Porto aonde esteve fundeada mais de quinze dias, sem o menor risco.

O mesmo Targini, único que naquele Pais falava a língua Francesa e pela obrigação do seu cargo foi ao seu bordo com o Ouvidor Geral, observou com um prumo haver fundo capaz de ancorarem embarcações de maior bordo.

Logo não há dificuldade para se fazer um comércio direto entre Siará e Portugal concorrendo tanto para ele ser ali a costa sempre benigna, e a enseada abrigada dos ventos sul pelo morro de Mocoripe.

 A Carta Regia, que a estabeleceu, tem a data de 24 de janeiro e mereceu de Bento Maria Targini o epíteto de prudentíssima. Como foi ela estabelecida, assim comunica o governador em carta de 29 de outubro: próximo passado dei princípio ao Estabelecimento da Junta da Administração e arrecadação da Real Fazenda desta Capitania do Seara:

Concorreram á posse e abertura dela os homens principais desta Capitania, e Francisco Bento Maria Targini, Escrivão Deputado, enviado pelo Real Erário para este Estabelecimento, recitou uma oração eloquentíssima (que julgo a envia a V. Exma,) pela qual mostrou a estes Povos as utilidades que se lhes seguiam assim da isenção da dependência imediata do Governo Gerai de Pernambuco, como do comércio direto cem a Capital e estabelecimento da nova Junta ; e todos se dão os parabens da sábia e Previdente Determinação da Carta Régia de 17 de Janeiro próximo passado.

3 – OLIVEIRA LIMA, MANOEL DE.   “O Movimento da Independência”

Conta-nos Oliveira Lima em seu livro “O Movimento da Independência” que: “Das cartas de Silvestre Pinheiro Ferreira o que se colhe é que os por ele chamados anarquistas, a saber, os revolucionários, persuadiram o rei sob “cavilosos pretextos” a mandar efetuar aquelas prisões sem anuência nem sequer conhecimento do ministro, “satisfazendo vistas particulares de torpe ambição, ou de sanguinária vingança” com o intuito apregoado de proteger as aludidas personagens contra as iras da multidão. O rei protestou ao seu ministro, que solicitara exoneração pela ignorância em que fora tido do ato, haver agido tão somente no interesse da tranquilidade pública, e de fato a custódia em que os detidos foram colocados, incomunicáveis, logo se levantou, tornando-se pública sua inocência.”

Mais adiante deduz Oliveira Lima:

Targini tinha numerosos inimigos e começou a tê-los pela sua severidade burocrática quando esteve no Ceará como escrivão da provedoria da capitania, assim encetando em 1783 sua carreira de funcionário da fazenda, e depois em 1799 como escrivão-deputado da junta de fazenda autônoma. Malquistou-se então com os governadores por questões do fisco e com os ouvidores por denunciar seus furtos na arrecadação dos bens de defuntos e ausentes. Como é que o Cérbero se transformou depois em dilapidador? Não haveria grande dose de calúnia nessa difamação? Hipólito dele escreveu que nem português sabia e, entretanto, Targini traduziu corretamente em verso o Paraíso Perdido de Milton e traduziu também “O Ensaio sobre o homem” de Pope em versos soltos”.

4 – DEBRET, Jean Baptiste –  VIAGEM PITORESCA E HISTÓRICA AO BRASIL – Tomo II – Volume III –Editora da Universidade de São Paulo.

Jean Baptiste Debret, em seu magnifico livro “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, após descrever sua visão dos tumultuados acontecimentos para a criação da ESCOLA REAL, DAS CIÊNCIAS, ARTES E OFÍCIOS, expõe este desabafo, ao se referir a Francisco Bento Maria Targini, que acompanhava D. João VI em seu retorno a Portugal, em 1821:

“O Barão de São Lourenço deixou o Brasil e nós perdemos assim o nosso protetor”.

 

5 – RELATO DO MEMORIALISTA PORTUGUÊS MARQUÊS DE FRONTEIRA E D’ALORNA, D. JOSÉ T. MASCARENHAS BARRETO EM SEU LIVRO MEMÓRIAS DO MARQUÊS DE FRONTEIRA E D’ALORNA

 (Notícias de Targini no exílio voluntário em Paris – vol i i – 3º – pag. 16)

Em seu magnífico livro MEMÓRIAS DO MARQUÊS DE FRONTEIRA E D’ALORNA, o nobre português D. José Mascarenhas Barreto relata os fatos importantes de sua vida, desde menino, e com ênfase para a Batalha do Porto, além de fatos corriqueiros.

No capítulo II do Tomo III, na página 14, refere-se a sua passagem por Paris, onde estabeleceu domicílio por algum tempo. Conta ele que:

“Em casa de José Francisco Beauchamp, reuníamos todos, os poucos emigrados da época. O jogo, a módico preço, era o divertimento predileto do dono da casa. 

Ali encontrei o Comendador Targini, Tesoureiro Mor do Erário, durante o tempo em que El Rei residia no Rio de Janeiro, o qual estava em Paris e dizia que não queria nada com o pai e nem com o filho e que tinha abandonado a Pátria por causa de um e doutro. Encontrando-se ali com alguns indivíduos que muito o acusavam, nas Cortes, o velho Targini, cheio de instrução e espír, ito, vingava-se, fazendo-lhes epigramas.

Agostinho José Freire tinha dito, no Congresso, que targinar era sinônimo de roubar. Estando a jogar voltarete com Targini, numa das reuniões, esqueceu-se de uma paga e o seu velho parceiro disse-lhe, muito amavelmente: Sr. Freire, parece-me que Targinou agora…

 

V – Consequências da difamação urdida contra Francisco Bento Maria Targini.

Uma antiga história conta que ao ver um rapaz a difamar uma pessoa, um velho o levou ao alto de uma torre e lhe deu um saco de penas, pedindo-lhe que as jogasse pela janela. O rapaz fez o que o velho lhe pediu. Então este disse ao rapaz: – Agora vá e recolha todas as penas. O rapaz respondeu que isto seria impossível, pois as penas haviam sido levadas pelo vento. E ai o velho disse: Meu filho, é isto o que acontece com as palavras, As palavras que você diz sobre os outros voam como voaram as penas e não há mais como recolhe-las, por mais que você se arrependa.

Esta história ilustra bem todo o mal que foi feito a Targini por aqueles que o difamaram por inveja, por interesse, por motivos políticos.

O Visconde nunca mais viu a mulher e as filhas, que venderam sua casa e viviam modestamente, passando a fazer doces para vender e conseguir algum ganho.

D. João VI, que lhe poderia valer nesses tempos difíceis, tinha tantos problemas com o reino e a família, que não lhe sobrava forças para fazer alguma coisa para seu antigo Tesoureiro, que lhe dedicara a vida para servi-lo.

Embora ficasse provado que Targini jamais tenha se apropriado do dinheiro do Erário, até hoje, sempre que alguém queira falar de corrupção, mesmos os melhores historiadores, dão como exemplo o nome do Visconde de São Lourenço e copiam de autor para autor palavras ditas e escritas há duzentos anos, carregadas de ódio, interesses, caluniosas e difamantes, sem investigar sua origem e se são verdadeiras.

As penas foram levadas pelo vento. Não há mais como recolhe-las.